Morador do entorno da Reserva idealiza projeto para preservar florestas

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Julian Righetto, empreendedor. Foto: Arquivo pessoal.

Neste ano, na série Guardiões da Reserva, trouxemos histórias de pessoas que têm um olhar especial na preservação das reservas brasileiras. Julian Righetto, morador do entorno da Reserva Biológica Tamboré, em Santana de Parnaíba (SP), faz parte desse time que cuida das áreas verdes como uma de suas paixões. “Abri a minha empresa com foco em reflorestamento, mas sempre quis criar uma causa sobre os problemas do desmatamento reunindo tanto pessoas físicas quanto jurídicas para um projeto global de recuperação de áreas degradadas”, conta.

O projeto TREES4PLANET é a materialização dessa vontade. Por meio de um portal (que está em fase de desenvolvimento), a ideia é que a população possa participar de forma direta, por meio da adoção de uma ou mais árvores ou para neutralizar as emissões de carbono per capita de gases de efeito estufa.

Além disso, uma das ações do projeto é levar a comunidade local a participar de toda a produção das mudas, plantio e manutenção. O lançamento está previsto para o primeiro semestre de 2017. O site atual, “Adote uma árvore”, será uma extensão do TREES4PLANET. Até o site do novo projeto ficar pronto, o público poderá participar por meio desse portal.

Fique por dentro de mais detalhes do projeto. Confira trechos da entrevista com Julian Righetto.

O que te impulsiona a trabalhar com esse tema?
Ele faz parte do meu cotidiano, em todas as áreas da minha vida. Uma das causas que amo é trabalhar tudo o que envolve as árvores. Gosto de plantar, cuidar e vê-las crescer. Quero ver o meu sonho de engajar as pessoas para que elas possam acompanhar o desenvolvimento das árvores durante dez anos via aplicativo. Essa é uma das propostas do meu projeto. Tenho uma satisfação imensa de participar e fazer as pessoas participarem também.

Como será o projeto TREE4PLANET?
É um projeto socioambiental sustentável para ajudar no combate ao aquecimento global por meio do reflorestamento de áreas de preservação permanentes e reservas no bioma amazônico. Esta será a fase inicial do projeto e depois pretendemos abranger os demais biomas do Brasil. O plantio das árvores vai aumentar a produtividade da terra, regenerar o solo e possibilitar a melhoria das condições de vida das pessoas que vivem na região, valorizando os moradores e impulsionando a economia local, a educação, a saúde e o bem-estar.

De que forma o projeto vai trabalhar com o desenvolvimento local?
Essas pessoas serão beneficiadas diretamente com o projeto no que tange o aumento de renda, a melhoria das condições de escolaridade e um melhor atendimento de saúde. Espera-se que o projeto possa acumular informações a respeito do que já foi desenvolvido e, a partir daí, transmitir esses conhecimentos para outras comunidades que estejam dispostas a implantar projetos semelhantes. Teremos, também, o envolvimento de uma grande quantidade de pessoas da região amazônica — desde coletadores e separadores de sementes a plantadores, viveiristas, cuidadores, podadores, tratadores, entre outros. As árvores de açaí, além do trabalho necessário durante o plantio e sua manutenção, futuramente darão frutos que servem, mais uma vez, como oportunidade de trabalho, tanto na colheita como no seu processamento.

Quais são os objetivos do projeto?
Temos uma preocupação de trabalhar em ações ambientais ligadas à floresta amazônica e ao combate ao aquecimento global. Alguns de nossos desejos são impulsionar a melhoria da qualidade de vida da população rural, evitando o êxodo rural; inovar constantemente a gestão ambiental, proporcionando desenvolvimento sustentável em perfeito equilíbrio com a sociedade e o meio ambiente onde estamos inseridos e contribuir para o crescimento do indivíduo e a conscientização global sobre recursos naturais. Buscamos ainda gerar recursos por meio da gestão ambiental, permitindo melhoria contínua para as populações envolvidas no extrativismo sustentável e consciente. A nossa maior meta é chegar a uma redução dos níveis mundiais de CO2 por meio de planos de incentivo à adoção de árvores.

Líder comunitário se dedica à preservação da Reserva Cazumbá, no Acre

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Nenzinho na Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema. Foto: Arquivo pessoal.

 

Em busca de Guardiões de Reservas — pessoas que se dedicam a preservar essas áreas verdes, encontramos Aldeci Cerqueira Maia, o Nenzinho, como é popularmente conhecido. Durante muitos anos, ele liderou o processo de organização comunitária que resultou na criação da Reserva Extrativista (Resex) do Cazumbá-Iracema, localizada no estado do Acre. Ela foi reconhecida e oficializada por meio do Decreto Presidencial s/n, de 19/09/2002, que garantiu a preservação de uma área superior a 750 mil hectares de Floresta Amazônica nos municípios de Sena Madureira e Manuel Urbano, à época, a segunda maior Reserva Extrativista do Brasil.

A Resex é considerada um exemplo de reserva que concilia os conceitos de uso responsável dos recursos naturais e a conservação da biodiversidade, com projetos que visam garantir o desenvolvimento sustentável das comunidades locais que vivem do extrativismo de castanha-do-Brasil, agricultura e pecuária de subsistência, pesca, artesanatos de borracha e sementes. Um deles é o Projeto de Monitoramento Participativo da Biodiversidade em Unidades de Conservação da Amazônia, do qual a Resex faz parte, e Nenzinho é um dos colaboradores na parte da fauna terrestre.

Como tudo começou

Nenzinho nasceu em 1962, na colocação (nome dado a determinada área de terra ocupada por uma família de seringueiros) Cazumbá, no Seringal Iracema, zona rural do município de Sena Madureira, no Acre. Começou a trabalhar cedo, aos 8 anos, acompanhando seu pai no corte da seringueira. Seguiu na atividade durante boa parte de sua vida, até 1985. Criou seus quatro filhos com renda proveniente do extrativismo, junto com a companheira Maria.

“Trabalhei toda a sensibilização das famílias para a criação da Resex Cazumbá Iracema. Foi então que comecei a trabalhar na gestão dela, onde estou até hoje”, conta. Segundo ele, o que o motivou foi a vontade de cuidar das famílias que moram no local, preservar a cultura dos extrativistas, suas formas de vida e estar por dentro de todos os processos de gestão da Reserva.

Em Sena Madureira, Nenzinho foi uma das principais lideranças do movimento seringueiro, que organizou “empates” para impedir a criação do Projeto de Assentamento Boa Esperança, no Seringal Iracema. Empate é o nome dado à mobilização de seringueiros que visa impedir a derrubada da floresta. De mãos dadas, eles formavam correntes humanas e cercavam a área que seria derrubada, impedindo que os trabalhadores contratados realizassem o corte das árvores. Assim, “empatavam” a derrubada e garantiam a manutenção da floresta em pé. O projeto não foi aceito pela Comunidade do Cazumbá, em razão dos impactos sociais, ambientais e econômicos que traria.

Hoje, Nenzinho atua na gestão participativa da Reserva. “Meu trabalho principal é atender ao público. Busco melhorar os conhecimentos das pessoas levando a educação para todas as famílias, para que possam valorizar o que é delas. Ofereço, também, novas alternativas que vêm do extrativismo, melhorando a renda de quem mora na região. De forma voluntária, sou presidente da Associação dos Moradores da Resex.”

Reconhecimento

Em reconhecimento à sua dedicação, ele já recebeu diversos prêmios nacionais, como o Prêmio Histórias de Sucesso, do SEBRAE, e o Prêmio FORD de Conservação Ambiental. Além desses, recebeu também alguns prêmios por meio da Associação dos Seringueiros do Seringal Cazumbá, da qual é idealizador e presidente. “É muito bom ser reconhecido por algo que a gente faz com amor. Meu maior troféu é preservar e desenvolver, de forma sustentável, os saberes, as crenças e os valores deste povo. Meu sonho é transmitir meus conhecimentos para meus descendentes, para as pessoas que vão dar continuidade a esta história”, afirma.

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