Superdotado conta como sua vida mudou com impulso do Instituto Lecca

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Felipe Oliveira. Crédito da foto: Joan Mariño

Com apenas 9 anos, Felipe Oliveira recebeu a notícia de que era superdotado pela equipe do Programa Estrela Dalva, do Instituto Lecca. De lá para cá, sua vida mudou radicalmente. Na época, estudava na Escola Municipal Francisco Alves, no Rio de Janeiro (RJ), quando foi escolhido para participar do programa de atendimento a crianças superdotadas do Instituto Social Para Motivar, Apoiar e Reconhecer Talentos (ISMART).

As etapas incluíram testes de raciocínio lógico, criatividade e redação com todos da sua sala. “Só eu e outro aluno fomos selecionados”, lembra. Após a época de preparação no Instituto, Felipe passou a estudar no Colégio Pedro II – Unidade Escolar Centro, considerada uma das escolas de excelência da cidade.

Hoje, aos 25 anos, Felipe já possui graduação em Física pela Universidade Federal Fluminense (UFF), um ano de iniciação científica feito em Valladolid, na Espanha, e mestrado em Engenharia Física, com ênfase em Óptica Aplicada nos Estados Unidos. “Depois que passei pelo Instituto Lecca, alcancei ótimos resultados acadêmicos, o que deu muito orgulho à minha família, que, por ser de baixa renda, tinha poucas expectativas quanto ao acesso à educação”, conta.

Atualmente, ele é professor voluntário de Física e Matemática no Instituto Lecca. Felipe dá aulas de reforço para alunos que passaram para as escolas de excelência, estudaram no Programa Estrela Dalva. Esta ação está alinhada a um dos seus sonhos: ter um Instituto próprio, voltado a crianças provenientes de família de baixa renda que têm grande potencial ou ajudar o Instituto Lecca a alcançar cada vez mais crianças.

Para conhecer um pouco mais sobre essa história de superação, o Instituto Brookfield conversou com Felipe. Confira trechos da entrevista:

Instituto Brookfield: Como foi a reação da sua família em relação ao fato de ser superdotado?
Felipe: Não sei se alguma vez isso foi anunciado com todas as letras aos meus familiares. Acredito que eles me consideravam muito estudioso e inteligente. Durante a fase jovem da minha vida, eles deram muito apoio, em todos os sentidos. Tudo que eu precisava, meus familiares, principalmente os meus pais, ofereciam.
No entanto, esse apoio e força, a partir de um certo momento na faculdade, começou a virar cobrança: —Você vai estudar a vida inteira? Não vai trabalhar ? Essas eram perguntas que escutei bastante, mas é fácil de entender. Na minha idade, minha mãe já trabalhava, era casada e tinha um filho.

Instituto Brookfield: Sua vida mudou quando começou a estudar no Instituto Lecca?
Felipe: Sem o Instituto, eu provavelmente não teria conseguido estudar em um dos melhores colégios federais do Rio de Janeiro, não teria feito curso de inglês, não teria cursado uma universidade federal, não teria feito um ano da minha graduação na Espanha (com bolsa integral) e não teria conseguido um mestrado nos Estados Unidos (com bolsa integral também). O que fiz não é tratado como prioridade em uma família de baixa renda. O imediatismo da questão financeira é muito mais importante do que investir em educação para ter um futuro digno — e, em alguns casos, não é nem questão de ser mais importante, é questão de necessidade. É preciso trabalhar para ajudar a pagar as contas em casa.

Instituto Brookfield: O que você acha que falta para descobrir e incentivar crianças superdotadas provenientes de famílias de baixa renda?
Felipe: Faltam profissionais qualificados nas escolas públicas para detectar crianças que se mostram diferentes — aquelas que têm um interesse específico em assuntos que não são muito comuns a crianças de certa idade, facilidade e agilidade para aprender determinados temas. É preciso, também, existir uma mudança de comportamento na sociedade, em que se deixe de discriminar e fazer chacota com aqueles que têm facilidade e vão bem em determinadas atividades. Qual é o problema em tirar nota alta? Cada um pode ser bom em aspectos diferentes. Alguns podem ser melhores em jogar bola, outros em escrever, outros em fazer conta etc. Faltam escolas públicas com ensino de qualidade, pois, atualmente, um estudante de escola pública não tem acesso à mesma qualidade de ensino que um estudante de escola particular. Os obstáculos são muito maiores e difíceis de serem vencidos. Faltam, também, mais iniciativas voltadas à educação de crianças como eu, que hoje poderiam gerar grande impacto à sociedade.

Instituto Brookfield: Como foi fazer mestrado nos Estados Unidos?
Felipe: Foi a realização de um sonho. Parecia que eu vivia em um filme. Foi muito especial ver que cada passo que dei na vida, cada decisão que tomei, cada oportunidade que aproveitei me levaram a alcançar esse feito. Fiz mestrado em Engenharia Física, com ênfase em Óptica Aplicada. Fiquei lá durante dois anos. Eu classificava meu inglês como um avançado tímido e não como fluente. Acho que a fluência só é atingida com muito tempo de vivência e estudo. Continuo considerando meu inglês como avançado, mas agora um avançado seguro, sem timidez. Detalhe: os 7 anos de curso de inglês foram financiados pelo Instituto Lecca.

Instituto Brookfield: Depois do mestrado, qual é o seu próximo passo?
Felipe: Estou buscando uma oportunidade. Pretendo conseguir uma vaga de trainee em alguma empresa de grande porte, conquistar um cargo de liderança e ir traçando um caminho para atingir meus objetivos.

Jovem superdotada quer transformar vidas com a gastronomia

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Amanda ao lado de Alex Atala e Massimo Bottura. Foto: Arquivo pessoal.

Antes do Programa Estrela Dalva, Amanda Buscacio, estudante de Gastronomia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), não tinha ideia de que era superdotada e que isso poderia ajudá-la a alcançar seus sonhos. Em 2007, quando entrou no Programa, aos 10 anos, sua vida começou a ganhar um novo rumo, principalmente nos estudos — com a possibilidade de sair da escola municipal em que estudava para entrar em uma escola de excelência do Rio de Janeiro.

“Não me considero diferente, apenas me sentia uma criança mais interessada por conhecimento do que as outras. Depois que entrei no Estrela Dalva, tive muito medo de fazer a prova para estudar no Pedro II”, conta. Mas a motivação da equipe do Programa foi fundamental, principalmente para aumentar a sua autoestima e permitir uma educação melhor”, conta.

Com a nova rotina, Amanda teve de conciliar o dia a dia entre a escola e o Programa — que tinha um cronograma intenso de estudos. Amanda também procurava arrumar um tempo para se dedicar às aulas de inglês — bolsa de estudos que ganhou ao entrar para o Estrela Dalva. “Foi difícil no começo. Tinha lição de casa todos os dias, mas consegui administrar numa boa. Quando passei para o Dom Pedro II, virei o orgulho da família, ganhei incentivo de pessoas que não esperava e tive toda a estrutura necessária para estudar no novo colégio”, lembra.

Inspiração

Na faculdade, Amanda encontrou alguns desafios e afirma que quase chegou a desistir do curso. Sua condição financeira a fazia se sentir deslocada. “Cheguei a pensar que era um curso para a elite, mas agora enxergo de outra forma. Quando conheci a organização Gastromotiva, virei fã do trabalho do chef David Hertz e vi que a gastronomia era possível para mim”, diz.

Há poucas semanas, um convite especial do Programa Estrela Dalva proporcionou uma das melhores experiências da vida da Amanda: conhecer grandes nomes da gastronomia internacional e ser voluntária por um dia no ReffetoRio Gastromotiva — projeto sem fins lucrativos, lançado neste mês, que promove gastronomia como agente social.

A iniciativa, idealizada por David Hertz, fundador da Gastromotiva, ao lado de Alexandra Forbes e do italiano Massimo Bottura, considerado um dos melhores chefes do mundo e idealizador do Food for Soul, funciona no espírito “pague um almoço e deixe um jantar”. No almoço, chefs convidados cozinham para o público em geral, que paga a refeição. No jantar, voluntários integram a equipe para servir pessoas em situação de vulnerabilidade social, indicadas por ONGs e instituições parceiras, como o Instituto Lecca, criador do Programa Estrela Dalva.

De incentivada a incentivadora

Amanda foi uma das primeiras a se voluntariar. “Tive a oportunidade de conhecer grandes nomes da gastronomia, como Alex Atala, Kátia Barbosa, Carlos Garcia, David Hertz e Massimo Botura. Fiquei muito emocionada por estar ao lado deles e também por ajudar a servir pessoas —muitas delas nunca foram servidas na vida.”

Nesse dia, o chef Bottura teve uma atitude que a surpreendeu. “Enquanto estava recolhendo os copos com a bandeja, ele chegou perto de mim, me deu um abraço e disse uma frase que marcou a minha vida: ‘Parabéns! Enquanto os outros olham, você trabalha’. Não sei italiano, mas soube disso graças aos colegas que estavam lá e ouviram o que ele disse. Essa virou a frase da minha vida.”

Hoje, ela afirma que já vive seu sonho e vê a gastronomia como instrumento para transformar a vida das pessoas. “Sinto que tudo o que quero está ao meu alcance, graças a todo apoio que recebi na minha vida, principalmente do Estrela Dalva e da minha mãe. Agora, quero possibilitar que outras pessoas realizem seus sonhos também. Sinto que este é o caminho que quero trabalhar.”

Projeto promove programas culturais para jovens superdotados

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Desde o final de 2015, os jovens superdotados que participaram do Programa Estrela Dalva e hoje estudam em escolas de excelência do Rio de Janeiro têm a oportunidade de participar do Projeto Mais Cultura. Criado pela voluntária Maria Cristina Darzé, com colaboração de Virginie Orreindy e Maia Gauthey, também conta com voluntárias do Instituto Lecca e do Programa Estrela Dalva.

A ideia do projeto é promover programas culturais para os superdotados que continuam com apoio do Instituto Lecca. Não existe uma temporalidade na programação e os passeios acontecem de acordo com a oferta cultural da cidade e a disponibilidade das voluntárias. A programação já incluiu visitas aos seguintes locais: Fundação Eva Klabin, Instituto Moreira Salles, Oi Futuro, Morro da Urca, Museu do Amanhã e Academia Brasileira de Letras.

Para Mônica Rivera, coordenadora do Programa Estrela Dalva, a continuidade da programação oferecida pelo Projeto Mais Cultura é de grande importância em todo o processo educacional dos alunos. Ele permite adquirir novos conhecimentos, possibilita novas relações e os transforma internamente. Considerando a concomitância de superdotação e carência socioeconômica e cultural, o acesso contínuo aos bens culturais dá a oportunidade de se conscientizarem sobre ofertas culturais disponíveis aos cidadãos como um todo”, afirma.

Sustentabilidade do Projeto Mais Cultura

O Programa Estrela Dalva organiza grupos de alunos e passeios, acompanha e supervisiona a programação cultural oferecida pelo Mais Cultura, mas não se responsabiliza por qualquer ônus financeiro. Todo o patrocínio do Programa Estrela Dalva é direcionado ao trabalho durante os dois anos em que as crianças frequentam diariamente o nosso espaço.
“As crianças do Mais Cultura já são maiores e os passeios realizados utilizam-se de transporte público, com a gratuidade oferecida pelos centros culturais e museus para os estudantes”, conta Mônica.

Superdotação é destaque na TV Alerj

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Segundo a ONU, os superdotados representam 5% da população de jovens e crianças no mundo. Em busca de disseminar as melhores informações sobre o assunto, Clara Sodré, coordenadora do Programa Estrela Dalva, e Paula Pessoa, especialista em superdotação, participaram do Programa Educ-ação, da TV Alerj, no início de março.

Paula e Clara falaram sobre os mitos que envolvem o tema, tiraram dúvidas frequentes e deram algumas dicas para educadores, pais e todos que se interessam pelo assunto. Entre os temas, a coordenadora do Estrela Dalva alertou para a depressão da criança superdotada, que se sente excluída do grupo, e para o contexto em que ela vira o braço direito do professor. “Todo e qualquer aluno tem o direito de aprender todos os dias em que ele vai para a escola”, disse.

O Instituto Brookfield é um dos parceiros do Programa Estrela Dalva, que apoia e incentiva o desenvolvimento de crianças superdotadas. Um dos objetivos é prepará-las para o ingresso em escolas públicas de excelência. A taxa de aprovação costuma ser acima de 90%. Muitos ex-alunos do Estrela Dalva estão, atualmente, em instituições como, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Instituto Militar de Engenharia (IME).

O desafio do Estrela Dalva é fazer com que aqueles que vivem em situação de risco social ou de extrema pobreza possam competir com crianças que tiveram acesso ao ensino de qualidade, pelas poucas vagas disponíveis em escolas gratuitas consideradas de excelência.

Confira os vídeos da matéria:

Parte 1:

Parte 2:

Superdotação: confira as 5 dúvidas mais comuns

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Quando o assunto é superdotação é comum que a falta de informação confiável acabe gerando conceitos errados e muitas dúvidas. Pais ficam aflitos com o futuro dos seus filhos, enquanto muitos educadores não sabem identificar alunos superdotados na sala de aula ou dar a eles a devida atenção.

Conversamos com Clara Sodré, pedagoga e coordenadora do Programa Estrela Dalva – que apoia e incentiva o desenvolvimento de crianças superdotadas – para saber quais são as cinco perguntas mais comuns que ela recebe em seu dia a dia. Confira!

Qual a diferença entre um aluno superdotado e um não superdotado?
Clara:
O aluno superdotado se caracteriza por ter um potencial superior em alguma área de seu desenvolvimento. Isto significa que ele se desenvolve muito mais rapidamente e muito mais profundamente na área da linguagem (aprendem a ler muito antes da idade normal, por exemplo), da matemática (aprendem a fazer cálculos mentais precocemente), da música, da arte e da dança, entre outras. Além disso, o aluno superdotado tem mais capacidade de pensar divergentemente. Isto significa que ele é mais criativo e dispõe de maior pensamento crítico. Além disso, o aluno superdotado tem maior capacidade de concentração: dedica-se por mais tempo e profundamente a atividades relacionadas à sua área de potencial superior.

Se os superdotados têm mais capacidade, por que precisam de um atendimento especial?
Clara: Por três razões, essencialmente. Em primeiro lugar, justifica-se o atendimento diferenciado da mesma maneira que se justificam diferenciações para alunos com deficiências físicas ou mentais, alunos com problemas específicos de aprendizagem etc. (legislação brasileira). Em segundo lugar, justifica-se a oferta de atendimento diferenciado dentro da lógica da equidade. Ou seja, para alunos diferentes é justo que o atendimento seja diferente. Finalmente, do ponto de vista econômico e político, justifica-se a diferenciação a partir das exigências que a modernidade impõe sobre países que querem atingir níveis elevados de desenvolvimento tecnológico, científico e social.

Todos os superdotados viram adultos brilhantes?
Clara: Não necessariamente. O aluno superdotado que tem opções educacionais condizentes com o seu potencial tem maiores chances de se desenvolver plenamente e, com isso, vir a ser um adulto com uma produção maior do que a média, revertendo seu potencial superior para o bem comum.

O que é possível fazer pelo aluno superdotado quando se tem mais 29 alunos na sala de aula?
Clara: Como em qualquer situação em que se configure a inclusão de alunos especiais, esta exige do professor um trabalho diferenciado. No caso do aluno superdotado, ele deve ter a opção de trabalhar em um nível acima do de seus pares, pelo menos na área em que se destaca. Isto pode ser feito de diversas formas. Uma possibilidade é planejar, para ele, atividades mais avançadas, em vez das atividades que são planejadas para todos. Outra possibilidade é acelerar o aluno em sua escolaridade. Isto pode ser feito avançando simplesmente o aluno, em todas as matérias, para uma série superior a sua. Ou, ainda, avançando o aluno para outra série apenas na área em que demonstra um potencial superior. Esta opção funciona melhor quando o aluno é extremamente avançado em matemática.

O que acontece com o aluno superdotado se ele não é estimulado?
Clara: As consequências são muitas. Durante a sua escolaridade, o aluno pode se desinteressar pela escola e aprender que, na escola, ele pouco aprende. Neste caso, ele pode se tornar um problema de comportamento, recusar-se a frequentar a escola ou, ainda, ficar deprimido. Em médio e longo prazo, ele pode não desenvolver todo o seu potencial, perdendo opções tanto de desenvolvimento acadêmico superior (por exemplo, cursar uma boa universidade) quanto de atividades profissionais mais especializadas e/ou sofisticadas. Com isso, perde a pessoa e perde o país, que fica desprovido de um profissional extremamente capaz e produtivo.